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João Anglin

João AnglinFaleceu a 28 de dezembro de 1975, no Hospital de São José, em Ponta Delgada, aos 81 anos de idade, o Dr. João Hickling Anglin, uma das figuras mais marcantes da pedagogia, da cultura e das letras açorianas.

Nasceu a 17 de abril de 1894, na freguesia de São Pedro, em Ponta Delgada. Frequentou o Liceu da Graça e, após concluir os estudos liceais, licenciou-se em Filologia Germânica pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

Durante a Primeira Guerra Mundial, exerceu funções como oficial miliciano e comandou tropas portuguesas em Angola, experiência que mais tarde influenciaria a sua atuação no ensino e na cultura.

Em 1921, regressou aos Açores e iniciou uma longa carreira no Liceu Nacional de Ponta Delgada, onde lecionou até 1964. Foi reitor do liceu desde 1926, com uma interrupção entre 1935/36 e 1938/39. Além disso, foi professor e diretor da Escola do Magistério Primário de Ponta Delgada a partir de 1943, contribuindo decisivamente para a formação de várias gerações de docentes.

No âmbito cultural, João Hickling Anglin foi sócio-fundador do Instituto Cultural de Ponta Delgada e, a partir de 1955, assumiu a presidência do instituto, cargo que desempenhou até ao fim da sua vida, reforçando o papel da instituição como referência cultural na região.

Como poeta e prosador distinto, deixou uma bibliografia diversificada, com obras de caráter pedagógico, histórico e etnográfico, bem como poesia. Entre as suas publicações mais relevantes destacam-se Flores com fruto: poesias (1945), Leituras para os meus alunos (1946), Alocuções escolares e outros escritos (1947), Novas leituras para os meus alunos (1954), Novas alocuções escolares e outros escritos (1953), Notas de um professor liceal (1955), A educação nos Açores (1955), Trinta anos de reitorado (1959), Últimas notas de um professor liceal (1961) e Padre Sena Freitas: antologia (1968). Foi ainda autor de obras como O historiador Joaquim Bensaúde (1953) e responsável por traduções de obras estrangeiras sobre os Açores, incluindo o livro Um inverno nos Açores e Um Verão no Vale das Furnas, de Joseph e Henry Bullar.

Colaborou com diversos jornais e revistas, como o “Diário dos Açores” e o “Correio dos Açores”, onde exerceu funções de corretor de provas. Foi igualmente procurador, diretor da Escola do Magistério Primário, presidente da Junta Geral e vogal da Câmara Municipal de Ponta Delgada.

Em reconhecimento da sua carreira e serviço público, foi agraciado com as insígnias de Comendador da Ordem de Instrução Pública (1952) e da Ordem do Infante D. Henrique (1962). O seu nome foi também perpetuado na toponímia de Ponta Delgada..

O funeral

O seu funeral realizou-se às 16 horas do dia 29 de dezembro, após missa de corpo presente, na Capela da Nossa Senhora das Dores, de onde seguiu para o cemitério de São Joaquim.

Na ocasião, tomaram a palavra o Sr. Dr. João Bernardo de Oliveira Rodrigues e o Sr. Dr. José de Almeida Pavão, que proferiu um discurso em homenagem à sua vida e obra.

“Minhas Senhoras e meus Senhores

Não seria este o momento azado para sopesar merecimentos humanos, num lugar onde, medidos todos pela rasoira da igualdade, devolvem ao chão da lousa o invólucro terreno, emprestado às palpitações da vivência neste mundo. E a melhor, a mais expressiva e a mais eloquente homenagem a prestar aqui aos que a merecem será a do silêncio recolhido à sua memória.

Não me sofre, porém, a consciência de que, sem quebra do respeito devido ao local e à circunstância, se cale a minha voz neste momento de despedida a quem deixa o seu nome vinculado a algo de perdurável no meio onde a sua actividade se exerceu.

Ao Dr. João Anglin ligam-me recordações indeléveis como aluno, como colega e como seu principal colaborador durante mais de duas décadas, em suma, como militante do mesmo ideal a que doámos a nossa existência.

Quando, há onze anos, o venerando Reitor do Liceu de Ponta Delgada cessou o exercício das suas actividades, por imposição legal relacionada com o limite de idade, fui, em palavras comovidas, expressar também o meu adeus de despedida a um Mestre, um Amigo e a um Companheiro que, afastando-se do nosso convívio diário, continuava, todavia, acessível ao tributo da nossa estima. Recordo ainda o calor humano dos presentes – professores, alunos e tantos admiradores – que ali foram manifestar-lhe o testemunho do seu afecto, o qual, para além do Ginásio do Liceu, se prolongou num grupo enorme de estudantes que, movidos por um impulso espontâneo e à margem de convenções e formalismos, o acompanharam até à porta da sua casa.

Tornaram-se proverbiais o seu carinho e a sua bondade manifestos perante os alunos, a contrastar com o porte austero que revestia a sua figura aprumada, mas que não raro se deixava trair por um sorriso que lhe iluminava o rosto e que fazia entrever a verdade da sua alma sempre disposta a esquecer e a relevar as faltas, perfilhando uma filosofia optimista, segundo a qual o perdão é a via mais segura e mais eficaz do arrependimento humano.

Dessa data ficou-me uma lição que tenho rememorado pela vida fora, ante a auréola de prestígio e de simpatia que o rodeavam: diríamos o espelho duma conduta manifesta em todas as facetas da sua actuação, na exemplaridade impoluta junto dos seus familiares, na alta competência do Mestre, na lhaneza do trato e na afabilidade com os seus subordinados e companheiros de trabalho e na consciência dos seus deveres como cidadão íntegro e prestante, que com tanta frequência foi solicitado a ocupar lugares de relevo na administração local. Nem consta que alguma vez a modéstia da sua vida de homem probo se tenha deixado ofuscar pelas seduções da grandeza ou do proveito material, que não raro fascinam quem se sinta tentado a macular a pureza das intenções próprias dos que só procuram o bem comum.

A obra literária do Dr. João Anglin, documentando um espírito muito culto e desejoso do saber, é, ao mesmo tempo, o prolongamento natural, orgânico, do âmbito da escolaridade, temperada pela inspiração poética, que mais espiritualizava o seu viver e se prolongou quase até aos últimos momentos de saúde mental e a despeito dos achaques que começaram a minar a robustez física que ainda manteve algumas semanas antes da sua morte.

É notável o seu contributo prestado à história açoriana através de traduções de vários depoimentos de individualidades estrangeiras que aqui vieram, atraídas pelos encantos da terra e pelas peculiaridades das suas gentes doutras eras.

Eis, minhas Senhoras e meus Senhores, algumas das facetas da sua personalidade que o tornam credor do reconhecimento e da estima dos micaelenses.

À sua estima e a esse reconhecimento venho juntar o preito da minha homenagem pessoal, ditada pelo calor da efectividade expressa, nesta hora derradeira, pelo último adeus a quem parte deste mundo com a tranquilidade de consciência própria de todos os que viveram a vida com dignidade e altura.”