Humberto de Bettencourt
Faleceu a 23 de dezembro de 1963, na sua residência em Ponta Delgada, o professor, jornalista, ensaísta e poeta Humberto Bettencourt Medeiros e Câmara, aos 88 anos de idade, viúvo de Cristina de Albuquerque Medeiros e Câmara.
Nasceu em Ponta Delgada a 31 de janeiro de 1875. Foi bacharel em Direito pela Universidade de Coimbra, onde foi colega e amigo de Afonso Lopes Vieira e de Eugénio de Castro. Ainda na sua geração de Coimbra, destacou-se como poeta de invulgar mérito, com uma poesia de inspiração parnasiana e com uma veia satírica marcante.
Ainda jovem, enquanto estudante liceal, fundou, em 1894, a revista Exoterismos, ligada ao simbolismo literário da época, evidenciando desde cedo o seu envolvimento ativo na vida literária açoriana. Ao longo do tempo, a sua obra literária acompanhou as correntes da época, transitando do simbolismo para o neogarrettismo e para uma poesia de caráter nacionalista.
Regressando a Ponta Delgada, abandonou a advocacia e dedicou-se à carreira docente, tendo sido professor no Liceu durante várias décadas e diretor e professor da Escola do Magistério Primário, onde escreveu autos de Natal e peças de caráter popular, reconhecidas como das melhores da época. No jornalismo, também se afirmou com qualidades notáveis, tendo dirigido o jornal “O Correio Micaelense” nos últimos anos da Monarquia (1908-1910).
Ao serviço do concelho de Ponta Delgada, desempenhou funções relevantes como comissário de polícia, tendo sido um dos sócios fundadores e o primeiro presidente do Instituto Cultural de Ponta Delgada, instituição central na vida intelectual regional. Foi também vice-presidente da Câmara Municipal e administrador do concelho, mantendo sempre um forte espírito de serviço público e dedicação regional. Durante muitos anos, foi chefe de secretaria na Santa Casa da Misericórdia e integrou a Comissão Editora da publicação das “Saudades da Terra” (1922). É recordado, desde 2005, na toponímia de Ponta Delgada.
A sua obra literária, embora reduzida em quantidade, é reconhecida pela qualidade e pela sensibilidade. Publicou o “Auto de Saudação” por ocasião da visita dos monarcas portugueses aos Açores e, em 1955, o Instituto Cultural de Ponta Delgada editou alguns dos seus poemas no volume “A Ilha Nova e outras rimas esparsas”, obra que muitos críticos consideram uma verdadeira revelação. A sua poesia e produção literária também se encontram dispersas em várias publicações periódicas, incluindo a Revista Insulana, bem como em imprensa local e nacional.
Além da sua participação no Instituto Cultural, Humberto Bettencourt teve papel importante na criação e definição da revista “Insulana”, órgão oficial do Instituto, concebida para apoiar a investigação e a divulgação da história, cultura e literatura dos Açores.
O funeral
O seu funeral realizou-se às 16 horas do dia 24 de dezembro, da sua residência na Rua da Alegria para o cemitério de São Joaquim. Presidiu ao funeral o Reverendo Vigário de São José, e usou da palavra, pelo Liceu, Escola do Magistério Primário e Instituto Cultural, o Dr. João Anglin:
“Meus Senhores
Algumas palavras, ainda que singelas, me cumpre dizer em homenagem a este saudoso amigo e antigo mestre cujo cadáver viemos hoje acompanhar à derradeira morada.
O Dr. Humberto de Bettencourt de Medeiros e Câmara, com cuja estima e amizade por largos anos muito me honrei, foi figura marcante da intelectualidade açoriana, no jornalismo, na poesia e no professorado, onde ocupou posições de relevo.
Antigo professor do Liceu de Ponta Delgada, conquistou as simpatias de numerosas gerações de rapazes que o tiveram como mestre preclaro e sabedor, em especial nas línguas latina e portuguesa, a última das quais manejava com elegância e notável saber. Também durante longo período dirigiu com acerto e proficiência a antiga escola normal desta cidade, de preparação profissionalismo de professores primários, que ainda falam com admiração do seu saudoso director, que em cada um deles soube criar um amigo.
Companheiro e amigo de Afonso Lopes Vieira e Eugénio de Castro nos seus tempos de Coimbra, onde cursou a faculdade de Direito, o Dr. Humberto de Bettencourt, concluídos os estudos jurídicos, volveu à terra natal e nela se fixou até ao fim da vida, exercendo funções destacantes no meio social de Ponta Delgada, em várias sectores de actividade administrativa e mental.
Ao redigir, um pouco apressadamente, estas linhas de preito à sua memória, evoco a sua figura de jornalista distinto, que durante alguns anos esteve à frente do diário e Correio Micaelense, quotidiano que marcou época entres as publicações periódicas de S. Miguel pela sua elegância literária e aprumadas atitudes no campo da política, bem agitada no nosso país nos últimos anos do regime monárquico, que este saudoso amigo serviu com lealdade e sacrifício.
Como poeta lírico, Humberto de Bettencourt deixa nome solidamente firmado por uma produção literária pequena em quantidade mas do melhor quilate pela beleza da forma, pela sensibilidade requintada e pela bondade que era uma das características do seu espírito e que imprime aos seus formosos versos um cunho de encanto e sedução.
Foi o primeiro presidente do Instituto Cultural de Ponta Delgada, que ainda não há muito prestou justiça à sua personalidade, promovendo e custeando, em parte, a edição da colectânea de poemas «A Ilha Nova e outras rimas esparsas», conseguindo por esta forma, até certo ponto, salvar do esquecimento algumas pequenas obras primas da literatura poética portuguesa, que doutra forma correriam o risco de se sumirem no pó das bibliotecas.
Com isto praticou o Instituto acção meritória pois tornou mais acessível ao público que aprecia a beleza da arte literária as produções de um espírito notavelmente favorecido pelas musas.
Como atrás disse, o Dr. Humberto Bettencourt honrou-me por muitos anos com a sua amizade, que era límpida, e a sua lealdade, que era sólida. Por isso, em meu nome pessoal e em nome do Liceu desta cidade, onde este ilustre morto exerceu por largos períodos o professorado e ainda em nome do Instituto Cultural, de que ele foi, como deixei dito, o primeiro presidente, me apressei a redigir estas breves linhas, para dizer no cemitério onde as suas cinzas permanecerão para sempre.
Humberto Bettencourt, a par de prosador de elevados méritos e de poeta de superior sensibilidade, era um homem de coração e um amigo com quem se podia contar.
O mesmo dirão, estou certo, quantos aqui vieram, nesta tarde brumosa de invernia prestar o preito da homenagem devida à sua saudosa memória.”

